26 Sep

E Deus disse, faça-se o Clitóris…


Entrevista com o Clitóris
- Comentada por Sagar -

Pergunta: Você é o único órgão humano encarregado única e exclusivamente de dar prazer e, no entanto, não tem sido reconhecido como merece. Isto é mais uma prova da tendência masoquista do ser humano?

Clitóris: O pênis tem muitos monumentos, uma corrente artística, quase um gênero — o fálico. A mim, foram feitas poucas estátuas, e deveria ser exatamente o contrário. O meu trabalho é totalmente altruísta e desinteressado. E, apesar disso, sou também o único órgão que deve pedir asilo político. Em alguns países cortam-nos a cabeça, e isto as próprias mães fazem com as filhas. Imagine-se um lugar onde fossem cerceadas as orelhas às crianças ao chegarem à puberdade! Seria uma loucura, mas com a gente continua acontecendo.


clitoris-miniEsta é parte 1 de uma série de comentários do terapeuta Sagar sobre as perguntas e respostas da famosa Entrevista com o Clitóris.


Sagar: Realmente, não existe nada parecido com o Clitóris… Ele possui de 8000 a 12000 terminações nervosas, o dobro da glande de um pênis. O mais interessante, porém, é que todos esses nervos foram projetados para uma única função… dar prazer.

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Ainda assim, quase todas as formas de religião condenam o prazer sexual em algum nível. O único sexo válido é o praticado para fins de reprodução, e o resto é, digamos… pecado.  Agora, o que fazer quando nos deparamos com um órgão que só serve para dar prazer? Seria esse o órgão do pecado?

Para o Tantra, o corpo e a sexualidade são sagrados.  Os genitais também.

O tabu que vivemos com a sexualidade leva o trato com o órgão sexual às sombras da psiquê. Não podemos falar sobre eles, não podemos aprender sobre eles, não podemos tocá-los, nem ter consciência sobre eles.

O resultado dessa repressão é óbvio… Nossa sexualidade evolui junto com outros aspectos sombrios da personalidade, e desenvolve-se em perversões, taradices, fetiches incontroláveis, abusos, e uma grande sorte de problemas e neuroses. 

dois monges e a mulher

… Diz uma história Zen que dois monges castos, mestre e discípulo, caminhavam por um rio quando se depararam com uma linda mulher à margem, incapaz de atravessar. O mestre, para horror do discípulo, prontamente tomou a mulher em seu colo e a carregou até o outro lado. Na hora o discípulo nada disse, mas após algumas horas, incapaz de se conter, interrogou o mestre: – “Como pôde o senhor tomar aquela linda mulher nos braços?”. Ao que o mestre respondeu: – “Ah, aquela mulher? Eu já a deixei para trás na margem do Rio, mas você, pelo visto, ainda está carregando-a até agora!”

Você já parou para pensar que 99% dos nossos xingamentos estão associados ao sistema excretor-reprodutor? E ainda somos capazes de dizer que não temos problemas com a sexualidade, que nossa geração é “desencanada”. Eu duvido muito…

É chegada a hora de assumir que a culpa das perversões e do sofrimento associado ao sexo não é inerente à sexualidade, mas sim fruto da repressão, da desinformação, e da ignorância generalizada.

O ser humano sexualmente saudável não faz sexo com a imaginação… Faz sexo com o corpo, com os sentidos, com as ferramentas naturais que lhe foram dadas na sua concepção, e através das quais pode encontrar um profundo estado de paz, saúde, harmonia, e tranquilidade espiritual. No Tantra, esse estado de iluminação é chamado de Unio Mystica.

Quando Deus disse, “faça-se o Clitóris”, ele deu um recado… Mas todos os “intermediários encarregados” de Deus fazem questão de transmitir outra mensagem. Dizem que Deus os escolheu para ensinar outra coisa.

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A verdade é que pelo próprio design da Natureza, o prazer sexual e a reprodução são coisas diferentes. Sua proximidade e interpolação, é claro, ajudam na propagação da espécie, mas uma não existe apenas para a outra.

Quando livres das perversões viciadas, o orgasmo e o estímulo genital promovem a circulação de diversos hormônios importantes na corrente sanguínea. Liberam endorfinas, dopaminas, serotoninas e ocitocinas, que previnem quadros de depressão, retardam o envelhecimento, aumentam a imunidade, estimulam o raciocínio e a capacidade de aprendizado, e tornam a pessoa muito mais bonita.

Quando Deus disse, “faça-se o Clitóris”, ele deu um recado… Você não foi feito para a dor, você foi feito para o prazer. 

Sagar

Artigo na íntegra publicado no El País em 04/02/2014
Traduzido por Silvio Diogo
Comentários por Sagar Metamorfose

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One thought on “E Deus disse, faça-se o Clitóris…

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